Caixa de texto: Cabotagem e Navegação Interior:
Instrumentos de Minimização do “Custo Brasil” Gerado nos Transportes
José Leopoldo Cunha e Silva, Engº Civil, Coord.-Geral  de Política Setorial do Ministério dos Transportes. 
Wanda Fritsch Souza,Economista, Coordenadora de Integração de Políticas. 
Eliziário Chaves Neto, Geográfo, Chefe da Divisão de Formulação de Políticas.
 

 

 

 

 

 

 


Introdução

 

A “função” transporte objetiva, primordialmente, assegurar o cumprimento dos requisitos básicos de mobilidade e acessibilidade, inerentes a toda e qualquer atividade humana, decorrentes da necessidade permanente de deslocamento de pessoas e de bens no espaço físico.

 

            Do ponto de vista estritamente econômico, como apoio à atividade mercantil, essa função agrega valor aos insumos e mercadorias – os “bens” – pelo seu deslocamento entre os pontos, respectivamente, de captação/produção e de utilização/consumo, valor agregado esse, correspondente ao frete cobrado por esse deslocamento.

 

            A busca permanente da minimização desse relevante componente de custo na cadeia produção-consumo constitui objeto da reflexão dos estrategistas dos transportes, mormente na quadra atual, quando, toda a humanidade se defronta com o fenômeno irreversível da “globalização”, a qual seleciona as economias nacionais pelas respectivas capacidades de ofertar ao mercado consumidor mundial, bens e serviços mais acessíveis em termos de qualidade e de preço.

 

            A sócio-economia brasileira não está indiferente a esse processo, e, nesse sentido, já vem experimentando os saudáveis reflexos do Programa de Estabilização Econômica – O Plano Real – implementado pelo Governo Federal no último quadriênio.

 

 No que respeita aos transportes, esse programa vem provocando uma silenciosa e progressiva modificação na forma de opção pela utilização de  suas diversas modalidades, a partir da conscientização da comunidade de agentes sobre os mesmos, notadamente os usuários, quanto à necessidade de se tornar competitiva no “mercado globalizado”, por meio da redução de todo e qualquer componente de custo de seus produtos e serviços.

 

É nesse contexto que o presente trabalho pretende avaliar a deseconomia anual gerada pela utilização do Sistema Nacional Básico de Transporte-SNBT na movimentação de cargas, fortemente condicionada à dependência da modalidade “sobre pneus”, em detrimento das demais, notadamente a “sobre águas”, dependência essa decorrente tanto das sucessivas políticas impostas ao setor nos últimos quarenta anos, quanto do quadro inflacionário experimentado pela nação a partir da década de 80.

 

1 – Objetivo e Escopo

 

Assim, este estudo retrata os gastos anuais a que a sócio-economia brasileira vem sendo submetida, e que constituem parcela significativa do chamado “Custo Brasil” gerado no Setor Transporte, em decorrência da subutilização do transporte hidroviário no atendimento à circulação interna de bens.

 

            Nesse sentido, releva assinalar que, a disponibilidade de infra-estrutura hidroviária em nosso País – cerca de 50.000 km de vias navegáveis, abrangendo a costa litorânea habilitada ao desenvolvimento da navegação por cabotagem e a rede hidroviária interior formada pelos estirões navegáveis de seus rios, lagos, lagoas e canais – é da mesma ordem de grandeza da malha rodoviária pavimentada sob jurisdição federal.

 

            Essa infra-estrutura rodoviária constitui parcela predominante da rede arterial do subsistema rodoviário do SNBT onde é gerada cerca de 40% da produção de transporte no Brasil, equivalente a, aproximadamente, 235 bilhões de tonelada.km anuais.

 

2 – Premissas  Básicas

 

            As seguintes premissas básicas são admitidas no desenvolvimento deste estudo, e constituem o arcabouço metodológico adotado:

· Manutenção do quadro de estabilização econômica com níveis inflacionários abaixo de 10% a. a.;

· Distância econômica de utilização do modal rodoviário no transporte de cargas limitada a um percurso máximo de 200 km; e

· Relações entre custos operacionais unitários relativos, respectivamente, aos transportes desenvolvidos “sobre águas” e “sobre pneus” admitidas em dois níveis:

-  1:3,7 de acordo com os dados observados pelo GEIPOT, em seu relatório acerca dos Corredores de Transporte para granéis agrícolas, levantados em 1995; e

-  1:8 admitindo-se a razão média observada no “mundo desenvolvido”, onde o transporte hidroviário é intensamente utilizado.

 

3 – Divisão Espacial

 

            Com base na “distância máxima econômica” de 200 km para a modalidade rodoviária, objeto da segunda premissa básica adotada, foram delimitadas as “zonas de influência” dos sistemas hidroviários disponíveis no Brasil, caracterizadas no mapa em anexo, e assim descritas resumidamente:

·      Zona I – área de influência do sistema fluvial Tocantins/Araguaia/Rio das Mortes, aproximadamente coincidente com a do “Corredor Centro-Norte”, que tem como único sistema rodoviário concorrencial existente a Rodovia “Belém-Brasília” (BRs-010/226/153/060) a qual, nessa zona, apresenta volume médio diário de tráfego entre 2.000 e 5.000 veículos nos pontos de maior concentração; os estudos da VALEC indicam que os fluxos de transporte de cargas nesse eixo totalizaram cerca de 9,8 milhões de toneladas em 1996;

·      Zona II – tem como eixo hidroviário principal o Rio Parnaíba, entre Santa Filomena/Alto Parnaíba e sua foz, no Oceano Atlântico, cujo sistema rodoviário concorrencial adotado neste trabalho é formado por trechos, no Estado do Piauí, integrantes da BR-135, entre Gilbués e Eliseu Martins, da PI-141, entre Eliseu Martins e Canto do Buriti, da PI-140, entre Canto do Buriti e o Entroncamento com BR-343, e da BR-343, entre o Entroncamento com a PI-140 e Floriano, com fluxo de cargas, observado em 1997, da ordem de 1,2 milhões de toneladas entre Gilbués e Floriano, de acordo com os estudos elaborados pelo GEIPOT em 97, acerca da Movimentação de Cargas no Corredor do Nordeste;

·      Zona III – estruturada no trecho navegável do Rio São Francisco entre Pirapora e Petrolina/Juazeiro, essa região abrange o médio vale daquele sistema fluvial, onde registrou-se em 95, a movimentação global da ordem de 1,1 milhões de toneladas pelos sistemas terrestres do transporte rodoviário, predominante na direção norte-sul;

·      Zona IV – abrange a faixa litorânea norte/nordeste do Brasil, com cerca de 200 km de largura, desde Belém, no Pará, até a Divisa entre os Estados da Bahia e do Espírito Santo; o sistema rodoviário concorrencial nessa zona é formado por trechos contíguos das rodovias federais BR-116, BR-324, BR-101, BR-304, BR-222, BR-343, BR-135 e BR-316, que se desenvolvem paralelamente à costa brasileira; para efeito de avaliação mais precisa dos diferenciais de custos, essa zona foi dividida em 7 sub-regiões, limitadas pelos principais portos marítimos, a saber: Belém, São Luiz, Fortaleza, Natal, Cabedelo, Recife e Salvador, onde se originam e para onde se destinam os fluxos rodoviários relevantes nessa zona;

·      Zona V – abrange a área de influência direta do sistema fluvial Paraná/Tietê, situada na mais dinâmica região do país em termos de movimentação de cargas e onde são produzidos 70% dos grãos agrícolas nacionais; para efeito do presente trabalho, foram tratados distintamente os sistemas Tietê (IV-A) e Paraná (IV-B), cada um movimentando nos respectivos sistemas rodoviários concorrenciais cerca de 500 mil toneladas em 1995, de acordo com os estudos do GEIPOT para os Corredores de Transporte de Granéis Agrícolas;

·      Zona VI – localizada no extremo ocidental da Região Centro-Oeste, essa zona abrange a bacia do Alto Paraguai; para efeito de avaliação do fluxo anual de transporte rodoviário concorrencial nessa zona, adotou-se a movimentação observada na BR-163, entre Cuiabá, no Mato Grosso, e Rio Brilhante, no Mato Grosso do Sul, da ordem de 5,4 milhões de toneladas de granéis agrícolas em 1995, de acordo com os estudos do GEIPOT;

·      Zona VII – tendo como eixo hidroviário básico o sistema fluvial Guaporé/Mamoré/Madeira, entre Vila Bela da Santíssima Trindade, no Mato Grosso e Porto Velho, em Rondônia, essa zona apresentou em 95, a movimentação de 300 milhões de toneladas de granéis, de acordo com os estudos do GEIPOT; esse fluxo circulou no sistema rodoviário concorrencial formado por trechos das rodovias federais pavimentadas BR-174 e BR-364, entre Pontes e Lacerda, no Mato Grosso e Porto Velho;

·      Zona VIII – dando continuidade à Zona IV, abrange a faixa litorânea sudeste/sul do País, mantendo os 200 km de largura aproximada, entre a Divisa da Bahia e do Espírito Santo e a Cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul; de forma semelhante, essa zona foi subdividida em 5 partes, com base    na localização dos portos marítimos da região: Vitória, Rio de Janeiro, Santos, Paranaguá, Rio Grande e Porto Alegre; o sistema rodoviário concorrencial admitido nessa zona, é composto por extensos trechos contínuos das rodovias federais BR-116 e BR-101, complementados por pequenos segmentos de outras rodovias (BR-392 e BR-471 no Rio Grande do Sul e BR-376 no Paraná);

·      Zona IX – essa zona abrange a maior bacia hidrográfica do mundo e tem como segmentos hidroviários básicos os principais rios da Bacia Amazônica: Amazonas, Solimões, Madeira, Negro, Branco e Tapajós; é a única zona admitida onde, por suas condições fisiográficas, não se observa concorrência da modalidade rodoviária no transporte de cargas;

 

Importa assinalar que essas zonas de influência não cobrem a totalidade do território nacional, registrando-se, assim, a existência de áreas não abrangidas pelo sistema hidroviário brasileiro.

 

4 – Apropriação dos Resultados

 

A tabela em anexo, encerra a metodologia adotada para quantificar, em cada zona de influência hidroviária definida, os diferenciais respectivos de custo operacional entre as modalidades rodoviária e hidroviária, para a movimentação do fluxo anual de carga admitido no estudo.

 

De acordo com a terceira premissa básica, onde admitiu-se as relações entre custos operacionais unitários Hidrovia:Rodovia de, respectivamente, 1:3,7 e 1:8, chegou-se a dois resultados distintos, conforme a alternativa admitida.

 

Com relação aos dados dessa tabela cabe observar:

·      O fluxo anual de carga, admitido em cada zona de influência hidroviária, foi fortemente condicionado pela disponibilidade de informações consistentes na bibliografia consultada. Assim, os dados referentes às zonas I e III basearam-se, respectivamente, nos estudos realizados em 1996 pela VALEC-Engenharia, Construções e Ferrovias S.A., para avaliar a demanda de transporte na região de influência da Ferrovia Norte-Sul, e no Relatório Final da Comissão Especial para o Desenvolvimento do Vale do São Francisco, do Senado Federal, que desenvolveu seus trabalhos ao longo do ano de 1995, trabalhos esses que abrangeram a grande maioria das cargas movimentadas nos respectivos sistemas rodoviários concorrenciais. Os elementos referentes às zonas II e IV, por sua vez, foram coletados no trabalho do GEIPOT acerca da “Movimentação de Cargas no Corredor do Nordeste”, desenvolvido em 1997, e, à semelhança dos anteriores, pretendeu abranger o total das cargas em trânsito no sistema rodoviário concorrencial admitido. Para as demais zonas, pela inexistência de dados disponíveis da mesma categoria, foram adotados os fluxos anuais apresentados no trabalho, também do GEIPOT, “Corredores de Transporte” – Granéis Agrícolas, coletados em 1995, abrangendo apenas os produtos: arroz, farelo de soja, milho, soja e trigo. Ou seja, pode-se afirmar, sem sombra de dúvidas que os resultados obtidos para essas zonas apresentam-se fortemente subestimados. A título de ilustração, de acordo com essa metodologia, o fluxo de cargas admitido no eixo rodoviário São Paulo/Rio de Janeiro (Rodovia Presidente Dutra), em 1995, foi de apenas 1,0 milhão de toneladas, quando o Estudo do Corredor de Transporte Rio de Janeiro-São Paulo-Campinas, em elaboração pelo GEIPOT, estima em cerca de 170,0 milhões de toneladas a movimentação total de carga pela modalidade rodoviária nesse corredor, 94% das quais, equivalentes a 160,0 milhões de toneladas, no eixo Rio-São Paulo;

·      Os custos operacionais nas alternativas rodoviárias foram obtidos à partir de uma redução de 15%, correspondente à parcela de lucro do transportador, nos valores da “Tabela de Fretes para o Carreteiro” referente ao ano de 1998, elaborada pela Seção de Autônomos da Confederação Nacional do Transporte-CNT, a qual estabelece a estimativa de frete rodoviário em R$/t, para diferentes classes de distância percorrida (em km).

Para efeito de apropriação dos diferenciais de custo operacional entre as modalidades rodoviária e hidroviária, produtos da tabela apresentada, nas duas hipóteses de relação entre custos operacionais unitários respectivos, adotou-se a seguinte metodologia:

– para cada zona de influência estabelecida, multiplicou-se o valor do frete obtido na “Tabela de Fretes para Carreteiro”, com a correção de 15% a menos e correspondente à classe de distância que encerra o percurso rodoviário concorrencial, pelo valor do fluxo anual observado, para obter o “Custo Operacional” na alternativa rodoviária;

– a seguir, para obter os custos operacionais na alternativa hidroviária, deduziu-se do valor antes alcançado as parcelas referentes aos custos operacionais do acesso rodoviário e do transbordo rodo-hidroviário, estimando-se assim, o “custo operacional líquido” na modalidade rodoviária;

– a aplicação das relações entre custos operacionais unitários nas duas modalidades levou aos “custos operacionais líquidos” na modalidade hidroviária, nas duas hipóteses admitidas – 1:3,7 e 1:8;

– por último, as diferenças entre cada valor de custo operacional líquido rodoviário e os respectivos custos hidroviários, nas duas hipóteses admitidas, conduzirão aos valores procurados.

 

5 – Conclusões e Recomendações

 

            Os valores numéricos obtidos, referentes aos diferenciais de custo operacional entre as modalidades de transporte rodoviária e hidroviária, mesmo considerando-se limitações em sua apropriação, indicam a necessidade de uma postura mais enérgica por parte dos gestores dos transportes em nosso País, no sentido de promover, a médio prazo, a reversão desse quadro.

            Releva assinalar o alto grau de subestimação desses valores, notadamente nas zonas hidroviárias situadas nas regiões Centro-Oeste e Centro-Sul, esta última, onde se registram as maiores densidades de tráfego rodoviário do País, na medida em que os dados de fluxo considerados nessa zonas abrangem apenas os granéis agrícolas objeto do respectivo estudo do GEIPOT. A título de ilustração, no eixo Rio-São Paulo, foram movimentadas em 97 cerca de 160 milhões de toneladas de carga por rodovia, das quais apenas cerca de 2% de produtos agrícolas; admitindo-se que 10% desse total tivessem sido transferidos para a navegação por cabotagem entre Santos e Rio de Janeiro, as economias geradas nesse transporte em relação ao rodoviário seriam da ordem de R$ 170,0 milhões/ano.

            Dessa forma é inaceitável a convivência com perdas anuais, aqui avaliadas de maneira bastante conservadora, da ordem de R$ 1,0 bilhão, em decorrência das distorções observadas na circulação interna de cargas no Brasil, estas impostas pela adoção, há muito longo prazo, de políticas imediatistas que privilegiaram, diretamente ou indiretamente, a modalidade rodoviária de transporte.

            Assim, o presente trabalho conduz às seguintes conclusões genéricas:

·      O Brasil é um país privilegiado em termos de disponibilidade de infra-estrutura hidroviária, tanto a interior como a costeira habilitada ao desenvolvimento da navegação por cabotagem. Observe-se que, de acordo com a metodologia adotada no presente trabalho, dos 8,5 milhões de quilômetros quadrados da área territorial brasileira, mais de três quartos, equivalentes a cerca de 6,5 milhões de km2, estão situados na área de influência direta do sistema hidroviário. Por sua vez, a “densidade de malha” hidroviária, tomando-se por base as vias navegáveis atualmente disponíveis é da ordem de 4,0m/km2, enquanto que, potencialmente, esse número pode ascender a cerca de 5,8m/km2, caso sejam adotadas medidas efetivas no sentido de incorporar ao sistema hidroviário os estirões não utilizados, através das indispensáveis obras de canalização. Nos Estados Unidos, por exemplo, que guarda fortes semelhanças com o Brasil em termos territoriais e de disponibilidade de malha hidroviária, este índice é da ordem de 7,1m/ km2;

·      No entanto, essa disponibilidade não vem sendo adequadamente utilizada na movimentação interna de cargas no País, acarretando descabidas deseconomias à sócio-economia brasileira – parcelas  significativas do “Custo Brasil” gerado no Setor Transporte. Assim, a estrutura de produção interna de transporte, expressa em toneladas.km, nas modalidades hidro, ferro e rodoviária, no período 1992-1996, apresenta a relação unitária H:F:R=1:1,9:5,4, em franca contraposição à relação equivalente, em termos de custos operacionais unitários (US$/t.km), referentes a essas modalidades, observada no “mundo desenvolvido”, onde o transporte “sobre águas” é intensamente utilizado – H:F:R=1:4:8. Ou seja, por uma série de distorções inerentes ao sistema brasileiro de transporte de cargas, a modalidade “mais cara” para a sociedade é a que mais vem sendo utilizada.

À luz dessas constatações, algumas medidas no âmbito da Política Geral de Transporte e de suas interfaces com as atinentes a outros setores, a seguir enunciadas, requerem imediata adoção:

·      Voltadas para a consideração da variável ambiental.

É imperativo que seja desmistificada a postura adotada por entidades ambientalistas no sentido de condenar o incremento do transporte hidroviário interior, sob o argumento de geração de impactos ecológicos negativos. Na comunidade científica internacional observa-se o concenso de que “a modalidade de transporte que menos agride o meio ambiente é a sobre águas, pelo motivo elementar de que sua infra-estrutura está praticamente disponível para operação, na grande maioria dos casos”. Para exemplificar, a devastação acarretada pela implantação da infra-estrutura de modalidades terrestres de transporte é da ordem de 5 hectares por quilômetro; no que respeita ao transporte hidroviário interior, desde que não se pretenda “adequar a via ao veículo”, mas ao contrário, identificar o tipo de veículo comercialmente factível, possível de transitar na mesma, em suas condições naturais, esse índice é praticamente nulo;

·      Voltadas para as questões energéticas

As interfaces da função transporte em geral, e da sua modalidade hidroviária em particular, com as questões ligadas à produção e ao consumo de energia são numerosas e bastante diversificadas. No que respeita ao incremento do transporte hidroviário interior, é imprescindível sua consideração em um marco mais amplo, voltado para o uso múltiplo dos recursos hídricos; nesse particular, importa observar os dispositivos pertinentes contemplados na Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, que “institui a Política Nacional de Recursos Hídricos” e adota outras providências, no sentido de “serem mantidas as características de navegabilidade do corpo de água” (Inc. VI, Art. 15).

Quanto ao provimento dos energéticos para os veículos de transporte, é imprescindível que os setores competentes do Ministério das Minas e Energia promovam a eliminação do subsídio concedido ao custo de produção do óleo diesel, decorrente da equalização dos custos respectivos dos derivados de petróleo bruto obtidos do processo produtivo de fraccionamento daquele insumo básico. Tal procedimento favorece sobre- maneira a modalidde rodoviária, em detrimento da hidroviária, na medida em que seus veículos consomem aquele energético, enquanto os navios oceânicos utilizam predominantemente o óleo combustível (“bunker”);

·      Voltadas para os aspectos de segurança da navegação

Em cumprimento a suas competências, o Ministério da Marinha desenvolve uma série de ações voltadas precipuamente para a observação dos requisitos da segurança da navegação; ocorre que, se levada a extremos, a observância desses requisitos pode inviabilizar o aproveitamento da navegação comercial no transporte de cargas. A navegação interior, por exemplo, entendida como aquela praticada nos rios, lagos, lagoas e canais, ou seja “confinada” e, portanto, muito mais segura que aquela realizada em mar aberto, se vê submetida, no entanto, às exigências do Regulamento para o Tráfego Marítimo, que exige o cumprimento de rígidas normas de segurança, incompatíveis com o porte das embarcações daquele segmento de navegação. Assim, é indispensável a instituição de um “Regulamento para o Tráfego Hidroviário Interior”, adequado ao mesmo, com vistas a reverter esse quadro.

A par disso, é imprescindível a ação das Capitanias, Delegacias e Agências dos Portos do Ministério da Marinha, no sentido de dar cumprimento ao disposto na Lei nº 9.537, de 11 de dezembro de 1997, que “dispõe sobre a segurança do tráfego aquaviário em águas sob jurisdição nacional e dá outras providências”, e em seus instrumentos regulamentares, no sentido de flexibilizar a prestação do serviço de praticagem, com vistas a reduzir seus custos e favorecer o incremento operacional do binômio porto x navio.       

No que respeita à ações específicas na área dos transportes, seus gestores deverão observar o cumprimento das seguintes ações:

·      assegurar os acessos terrestres aos extremos das hidrovias interiores;

·      disponibilizar os recursos para a realização das obras em segmentos hidroviários interiores, com vistas a garantir a continuidade física da malha respectiva (eclusas de navegação, canais, obras de regularização, etc...);

·      promover o desenvolvimento da indústria de construção naval brasileira, objetivando tornar a frota mercante nacional, em todos os seus segmentos (longo curso, cabotagem e navegação interior) competitiva em relação aos parâmetros internacionais respectivos; para tanto, é indispensável e urgente o fortalecimento, a agilização e a flexibilização das competências da Comissão Diretora para o Fundo da Marinha Mercante.

Por último, cabe assinalar a especial atenção a ser conferida para o equacionamento da dotação de infra-estrutura de transporte para as áreas territoriais brasileiras não abrangidas diretamente pelo sistema hidroviário, mormente aquelas situadas em zonas de expansão de fronteira econômica; para essas, as soluções a serem adotadas devem contemplar prioritariamente a modalidade ferroviária, ou sistemas multimodais rodoferroviários.

 

 6 – Referências Bibliográficas

 

1.      GEIPOT (1997), “Corredores de Transporte – Proposta de Ações para Adequação da Infra-estrutura e para Racionalização do Transporte de Granéis Agrícolas”.

2.      U.S. departamento of Transportation (1994), “Environmental Advantages of Inland Barge Transportation”.

3.   Cunha e Silva, J.L. (1992) – “Brasil: Transporte para o Futuro” – Transporte Hidroviário Interior – CNT.

4.      DNER (1995), “Relatório de Contagem Volumétrica Mecanizada”, Plano Nacional de Contagem de Trânsito.

5.      OIKOS Pesquisa Aplicada Ltda (1996), “Detalhamento dos Estudos de Demanda de Transporte na Região de Influência da Ferrovia Norte-Sul”, Estudo da VALEC – Engenharia, Construções e Ferrovias S.A.

6.      GEIPOT (1997), “Movimentação de Cargas no Corredor do Nordeste”.

7.   Senado Federal (1995), “Comissão Especial para o Desenvolvimento do Vale do São Francisco” – Relatório Final.

8.      Transcor RSC (1997), “Estudo do Corredor de Transporte Rio de Janeiro-São Paulo-Campinas”, Consórcio Brasileiro Alemão – GEIPOT.

9.      DNER (1998) – “Rede Rodoviária do PNV – Divisão de Trechos”.

10. CNT – Confederação Nacional do Transporte (1998) – “Tabela de Fretes para o Carreteiro”.

11.             Guimarães, J.C.M.S. (1978), “A Navegação Fluvial”, Jornal do Brasil (8/12/78).

12.             Portobrás (1978), “A Rede Hidroviária Brasileira”.

13. Portobrás (1988), “Rede Hidroviária Brasileira” – Livreto referente aos mapas – Plano Nacional das Vias Navegáveis Interiores.